A Sementes da Discórdia: Ou porque o Farmville não é uma revolução para os jogos

A última Game Developers Conference aconteceu na semana passada, e foi meio morna, em comparação ás palestras e mesas-redondas inflamadas de outros anos.Entre os principais destaques, além do anúncio de que a Sony começará a fabricar Wiimotes, estava a ascensão do tais jogos casuais, aqueles integrados ás redes sociais, como o Facebook, que estão a cada dia rendendo mais dinheiro.E provavelmente o astro-maior dessa onda de jogos sociais é certamente o onipresente Farmville.

Enquanto o status de jogo desta aplicação hortifrutigrangeira é discutível, o que é inegável é que Farmville e seus incontáveis de similares são jogados por milhões de pessoas, o que está faz com que eles sejam considerados por vários analistas como o futuro dos jogos eletrônicos.Mas será mesmo que os jogos sociais são o futuro da indústria de entretenimento eletrônico?

Talvez até sejam, mas se de fato forem, estamos lascados.

Existem diversos pontos que me incomodam com os jogos sociais, em especial com o Farmville.Se descontarmos todas os motivos disponíveis para não simpatizar com a Zynga, a criadora do jogo, que tem uma ética empresarial bastante questionável, e descontarmos também o fato de que o Farmville é essencialmente um clone de outro jogo social, o FarmTown, ainda temos um ponto mais importante; o que Farmville porque não é um jogo de fato.

Eu não estou me referindo aos jogos de browser, nem aos demais jogos sociais (bom, talvez alguns deles); acho que todo mundo já deve ter passado algum tempo com algum RPG de browser, aonde a falta de agitação é compensada pela constante recompensa do jogador.Embora eu também não seja grande admirador de jogos nesses estilo (como o também ubíquo Mafia Wars), eu tenho que admitir que eles envolvem um mínimo de raciocínio e atenção do jogador, em como ele emprega seus atributos e que ações realiza, além de disfarçar isso com uma temática específica.O problema é que eu acho que esses jogos são tão divertidos quanto mexer em tabelas do Excel.O que, em nível de programação, é o que eles são.

Mas Farmville não dá nem a ilusão de coisa alguma; lá está na tela seu avatar cabeçudo, e o status das fazendinhas dos seus amiguinhos, pulsando, compelindo você a continuar jogando.Mas você não está.Não há desafio algum nesse “jogo”, porque você não pode ganhar; a única coisa que você pode fazer é perder.O “jogo” usa intencionalmente táticas psicológicas para te prender nele (que incluem outras coisas, como a larga disposição de itens para serem adquiridos, o visual colorido, e a onipresença de recados do jogo na rede social em si).Ele também compele o jogador a voltar constantemente, sob a constante ameaça de ter sua colheita arruinada se voltar muito tarde, e tem o ritmo forçadamente lento, o que direciona o jogador a ir comprar (com dinheiro de verdade!) bônus para a sua fazenda imaginária.

Nâo é só desagradável e um pouco cruel, mas também assustadoramente bem pensado, tal como uma máquina de cassino.

Então, porque tanta gente o joga todo dia?Bom, o jogo é pensado para se propagar, tal como um vírus, pela rede social; além da já citada propaganda automática pelos recados na rede, o jogo concede certos itens especiais para quem o indica os amigos, e tal.Considerando que o jogo não tem fim, os jogadores ficarão em perpétua competição, pois ninguém quer ficar para trás.

Farmville não é um jogo porque não tem regras, não tem desafios, não tem espaço para o jogador exercer a criatividade; ele é um aplicativo que pegou características que fazem as pessoas jogarem jogos de verdade, e as diluiu numa maçaroca que apenas consome o tempo do usuário. Ao invés de criar novos jogadores, Farmville está prestando um desserviço cultural á indústria, pois apenas reforça o estereótipo de bobagem compulsiva que os jogos têm.Muito membros da comunidade desenvolvedora de jogos já estão emitindo opiniões contra esse modelo; aparentemente, este caminho nos levará á um ponto em que o objetivo de jogar não será a diversão (ou a iluminação pessoal, sei lá), mas sim, realizar tarefas chatas e repetitivas para receber recompensas superficiais.

Enquanto isso, basta a nós, jogadores de verdade, enquanto esperamos que o Farmville seja extinto, tal e qual os dinossauros e o Second Life, é convencer os outros do que de fato é esse caça-níqueis.Mas acho que isso é mais fácil falar do que fazer…

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