Medo e Delírio no Reino dos Cogumelos: Impressões sobre New Super Mario Bros. Wii

Simplicidade é essencial para um design de jogo de qualidade; um jogo tem que ter as suas regras mais básicas sendo fáceis de aprender, para depois serem acrescidas mais e mais complexidades para o jogador lidar.Porém, conforme surgem novas sequências, iterações e imitações, essa idéia inicial pode acabar se perdendo sob várias camadas de complicação desnecessária.

Várias séries de jogos que perderam fôlego nos último anos estão voltando ás origens, em busca daquela centelha que se perdeu; por exemplo, Megaman 9 e o vindouro Megaman 10, e o recentemente anunciado Sonic The Hedgehog 4 -Episode I .Uma série, porém, que sempre se ateve a pequenos saltos a cada nova versão, e que sempre manteve a qualidade consistente é a série Super Mario.Então, será que se ater aos elementos básicos, sem trazer grandes saltos, vai ser sempre garantia de qualidade?

Não, claro que não.

E é precisamente por isso que New Super Mario Bros. Wii é tão decepcionante.


Antes de começar, vamos esclarecer que NSMBW (eu não vou ficar digitando isso o tempo todo nem a pau) não é um jogo ruim.Na verdade é divertido, bem produzido, e com aquela atenção aos detalhes que você normalmente espera de um jogo da Nintendo, fora que é bastante significativo o fato de o maior lançamento para o ano passado tenha sido um jogo em 2D.O problema é, se você jogou algum dos outros jogos clássicos do encanador, para NES ou Super Nintendo, vai perceber que este é um jogo burocrático e preguiçoso.

Mas antes de entrar nas razões, é necessário acompanhar sua trajetória; NSMBW foi anunciado na E3 do ano passado, pouco mais de meio ano antes de seu lançamento, causando boa impressão, e se tornando um dos jogos mais aguardados para o Wii.Mas o último título principal de Mario, o sensacional Super Mario Galaxy, ficou em desenvolvimento por mais de três anos…Tudo bem, tudo bem.Além disso, o jogo seria mais ou menos uma continuação de New Super Mario Bros, lançado para o portátil Nintendo DS em 2005, e traria várias características deste jogo.Por fim, ele traria uma opção de multiplayer cooperativo/competitivo, permitindo vários jogadores ao mesmo tempo na tela.

Aí já surgiram alguns desagrados; primeiro, o jogo para Wii era muito similar ao para o portátil, com apresentação quase idêntica, fazendo alguns acharem que o título para Wii se tratava apenas de uma conversão.Além disso, o fato de que o jogo seria ausente de uma opção online para o modo multiplayer, e os quatro personagens disponíveis seriam Mario, Luigi, e dois Toads idênticos e sem nome, já sinalizaram uma certa falta de cuidado da Nintendo com o título, falta essa evidenciada nas desculpas esfarrapadas com que essas perguntas foram respondidas.

Tendo eu terminado o jogo, percebe-se que não é falta de cuidado que gerou essas decisões, e sim, uma filosofia de design preguiçosa, que fez apenas o mínimo necessário.Eu acho que, para um jogo se destacar, ele deve tentar surpreender o jogador; NSMBW ativamente insiste em não apresentar nada de novo, algo inaceitável para um título da série principal do Mario.

O jogo tenta apresentar uma série de novos elementos, como a presença do sensor de movimento do Wiimote; é possível inclinar o controle para controlar plataformas e fachos de luz, e sacudi-lo para usar certos poderes, como a roupa voadora.Porém, não é nada que não pudesse ser feito com um controle convencional.Em muitos momentos, aliás, o uso do sensor é até meio forçado, como o fato de que é necessário sacudir e usar o botão de corrida para pegar certos objetos, algo desnecessariamente complicado.

Outros elementos parecem prejudicados por essa aparente falta de cuidado; a sensação de controle do personagem parece diferente nessa nova iteração, já que Mario parece mais “pesado”.Também, as áreas de contato dos inimigos parecem menores (talvez pela substituição de sprites em 2D por modelos em 3d), causando algumas mortes desnecessárias.Felizmente, controlar Mario pelas fases ainda é uma diversão, graças em grande parte aos novos movimentos herdados da versão de DS, como o deslizar pelas paredes, e o salto triplo.

O problema é, o design das fases é largamente sem inspiração.As coisas melhoram um pouco depois do quinto mundo, aonde algumas fases são mais interessantes (como as fases que usam de efeitos de luz e trevas), mas no geral, tudo se prossegue sem muitas surpresas.Pior ainda, os temas dos mundos são aqueles clássicos, repisados em outros mil jogos (gelo, fogo, água, deserto…).Eu honestamente não vejo problema nisso, mas se considerar que esses temas eram exatamente os mesmo, sem tirar nem por, da versão pra DS, se percebe oportunidades não aproveitadas para fazer coisas mais legais (especialmente depois de Mario Galaxy, em que fases individuais continham idéias que, quando bem utilizadas, podiam render jogos inteiros).

Descontando que algumas fases são praticamente idênticas á versão pra DS, muitos elementos também são retirados sem mudança para a versão de console, como as moedas vermelhas (que se coletadas num espaço de tempo, fornecem um item ou uma vida), e as Ghost Houses, que não trazem nem um pouco daquele design maravilhosamente contra-intuitivo de quando apareceram pela primeira vez, em Super Mario World.Isso sem contar algumas decisões de design gerais que simplesmente não fazem sentido, como passagens secretas (o jogo é fácil o bastante, e curto o suficiente, para torná-las irrelevantes), ou a presença de Yoshi (que aparece em no máximo, sei lá, cinco fases), ou as casas aonde se pode conseguir itens e vidas, aplicadas de uma forma que quebra o ritmo do jogo.

E aí tem o multiplayer, o grande destaque do jogo.Na teoria, ele é bem interessante, pois a possibilidade de jogar com vários personagens a jogabilidade da serie Mario é uma promessa que orbita a cabeça dos jogadores há muito tempo.O problema é que a execução deixa a desejar.Se você já leu na internet alguma análise de NSMBW, já deve saber que o modo é uma bagunça completa, com todo mundo se matando o tempo todo.Isso poderia ser muito divertido, como, sei lá, Smash Bros. , mas na prática, só causa desentendimentos bem reais entre os envolvidos.

Explico: as mecânicas do jogo são estruturadas para você acabar matando seus amigos, ou dificultando a vida deles.O problema é que o modo principal, é, em tese, cooperativo, o que é meio impraticável com o seu personagem ricocheteando o tempo todo pela tela.O jogo remedia isso dando continues que permitem o jogo continuar mesmo se um jogador fique sem vidas, mas á essa altura, você vai estar muito ocupando trocando socos com os seus ex-amigos, porque um deles saiu correndo no nível da torre e fez a tela engolir todo mundo.Pode se notar porque não existe um modo online; sabe-se lá o que os jogadores típicos desses jogos, com sua pouca compreensão das normas de convívio social, transformariam as partidas relativamente inamistosas num inferno.

Ou seja, o modo multiplayer é exatamente o que se esperava; Mario com quatro pessoas.Os níveis não tem nenhuma mudança, tampouco existem níveis especiais para mais jogadores.Existem modos competitivos, aonde o jogo em multiplayer faz sentido, mas eles são muito breves, e como usam as mesmas fases do single-player, não são muito interessantes.

Algumas decisões poderiam transformar esse modo em algo mais interessante, como dar habilidades e pesos diferentes para cada jogador, como em Super Mario Bros. 2 (sabe,  aquele jogo que não é de fato um jogo do Mario), o que deixaria o jogo verdadeiramente cooperativo.Ou talvez deixar os personagens jogáveis intangíveis entre si.Ou sei lá, limitar a quantidades de jogadores em certas fases.Esse é um jogo que pode funcionar surpreendentemente bem com dois jogadores apenas.

Até mesmo o modo single-player sofre por causa do multiplayer; como a solução encontrada para corrigir o design atrapalhado da modalidade é entupir o jogador de vidas, o jogo acaba ficando criminalmente fácil, principalmente para um jogo do Mario.Sério, eu não jogava um jogo de plataforma faz tempo, e terminei o jogo com inacreditáveis 67 vidas!

New Super Mario Bros. Wii era um jogo com muito potencial, e ele se revela em muito momentos (adorei as fases das bolhas d’água flutuantes, ou a da jangada sobre o pântano).Mas no geral, o jogo acaba vítima da própria falta de ambição; o jogo nada acrescente de novo para a série Mario, para o gênero plataforma, ou para os jogos em geral.Tenho grandes dúvidas se daqui á dez, quinze anos, alguém o título se mostrará relevante (mesmo que agora esteja vendendo que nem pãozinho quente)Na tentativa de fazer um jogo que agradasse a todos, a Nintendo esqueceu de colocar o essencial: personalidade.

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